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POR QUE POLÍTICA IMPORTA

O erro estratégico de subestimar a política


Empresas não são neutras em relação à política; ao contrário são diretamente afetadas por ela em seu cotidiano. Por isso, promover espaços saudáveis para o debate é essencial para qiue os riscos políticos e as oportunidades sejam obervados .


Política é um conceito amplo, frequentemente carregado de conotações distintas — muitas vezes imprecisas ou indevidas.


No ambiente empresarial, costuma ser entendida como o conjunto de diretrizes e regras que orientam a vida corporativa. Essa visão, embora útil, é insuficiente quando tomada como bastante para a condução dos negócios.


Política está presente em todo contexto que envolve conflito, escolha, poder e influência na definição de prioridades e na alocação de recursos. Não há, portanto, razão para tratá-la — a arte das possibilidades nas relações sociais — como algo dissociado das práticas corporativas.


Empresas não são neutras em relação à política; ao contrário, são diretamente afetadas por ela em seu cotidiano. Ainda assim, fatores culturais e estruturais contribuem para percepções distorcidas ou incompletas. Em ambientes de forte polarização, por exemplo, o debate político tende a ser evitado, sob o argumento de que gera conflitos desnecessários. Não é raro que líderes sustentem que política e negócios não se misturam, tratando dissensos como inconvenientes.


Essa postura tem explicações. Pressionadas por resultados de curto prazo, muitas empresas enxergam os riscos políticos — geralmente difusos e cumulativos — como lentos e pouco tangíveis. Por isso, optam por reagir apenas quando necessário, em vez de antecipar cenários. Ao subestimá-los, perdem oportunidades e se expõem a impactos convergentes, ignorando que é a política que orienta prioridades e modelos de desenvolvimento.


Permanecer alheio a isso é desconsiderar fatores como inflação, política monetária, política industrial e reformas regulatórias, que afetam diretamente custos, produtividade e as condições de mercado.


Embora muitas empresas capturem bem variáveis econômicas, tendem a simplificar a dimensão política, reagindo apenas quando o risco já se materializou em crise. A natureza difusa desses riscos cria a percepção de que seus efeitos são generalizados e, portanto, neutros em termos competitivos — o que leva à sua normalização. Na prática, porém, eles se acumulam silenciosamente e comprometem a sustentabilidade dos negócios no longo prazo.


Mesmo empresas com bom acesso a governos e reguladores não estão imunes. A crença de que proximidade institucional permite antecipar ou mitigar decisões ignora que, em democracias, o processo decisório é dinâmico e sujeito a mudanças contínuas.


Os maiores danos raramente decorrem de riscos isolados e plenamente modeláveis. Eles emergem justamente em ambientes de aparente estabilidade e confiança, quando mudanças são negligenciadas. Eventos extremos não se manifestam, de início, como desordem explícita; seus efeitos são graduais, difusos e acumulativos, até pressionarem a governança. Inovações disruptivas ilustram bem esse fenômeno: empresas mais atentas às mudanças redefinem mercados e afetam concorrentes sem aviso prévio.


Outro fator relevante surge em contextos de polarização política, nos quais executivos passam a interpretar riscos a partir de preferências ideológicas ou de seus círculos sociais, distorcendo a análise objetiva. Isso pode levar à adoção de posturas corporativas de cunho militante, frequentemente desalinhadas com parcelas relevantes do mercado consumidor.


Além disso, riscos políticos frequentemente exigem mudanças estratégicas profundas, com impactos relevantes sobre investimentos e posicionamento competitivo. Diante disso, muitas empresas optam por adaptações graduais. O problema é que adaptar-se em excesso pode ser tão arriscado quanto não reagir: ao seguir apenas o padrão médio do mercado, reduz-se a capacidade de inovação, abrindo espaço para concorrentes que utilizam crises como vetor de transformação.


É por isso que conselhos de administração maduros não se limitam a discutir riscos conhecidos. Eles analisam riscos sistêmicos, seus mecanismos de propagação, canais de contágio e, sobretudo, a capacidade da organização de enfrentá-los.


Ainda assim, muitas empresas se orientam predominantemente pelo passado e pelo presente. Regra geral, concluem que se “tudo deu certo até hoje” e que política foi sempre assim, para que mudar? Essa lógica é particularmente perigosa para os negócios, quando fatores externos, por vezes extremos, promovem mudanças que carregam riscos não administráveis, como mudanças de legislação, insegurança jurídica, protecionismo, abertura de mercado, mudanças nos regimes de incentivos e financiamento e outros fatores disruptivos.


Empresas mais sofisticadas não ignoram os riscos políticos. Ao contrário, investem em inteligência política, construção de cenários e fortalecimento da governança, conscientes de que o erro mais comum não é superestimar, mas subestimar esses riscos.


Em última instância, os maiores equívocos não estão em ignorar a política, mas em presumir estabilidade onde ainda há incerteza estrutural.


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