Etarismo DESDE QUANDO APRENDER COM O PASSADO VIROU PROBLEMA?
- E.Moreno

- há 2 dias
- 4 min de leitura

Empresas mais bem-sucedidas compreendem que o verdadeiro diferencial competitivo está na diversidade cognitiva.
Justificar abertamente o etarismo não é uma prática comum nas empresas, afinal, a discriminação por idade é socialmente condenada e, em muitos casos, ilegal. Ainda assim, trata-se de uma realidade presente na maioria das organizações.
Os argumentos raramente são explícitos, mas costumam seguir uma mesma lógica: profissionais mais experientes teriam maior dificuldade para se adaptar às mudanças por se orientar excessivamente por conhecimentos, práticas e modelos do passado.
Em um ambiente de negócios marcado por transformações constantes, inovação e visão de futuro se tornam condições essenciais, quando a experiência passa a ser vista, equivocadamente, como um fator limitante.
A premissa é conhecida: trabalhadores mais velhos seriam mais resistentes às mudanças, prefeririam métodos já testados e encontrariam mais dificuldades para se adaptar às novas tecnologias. Em contrapartida, os mais jovens seriam naturalmente mais flexíveis, aprenderiam com maior rapidez e estariam mais preparados para responder às exigências de mercados em transformação.
Embora haja situações em que essas características possam ser observadas, elas não são suficientes para explicar origem do etarismo. Na verdade, refletem uma compreensão simplificada e limitada sobre aprendizado e inovação. Confunde-se idade com comportamento, como se a capacidade de aprender, criar ou se reinventar estivesse diretamente relacionada à faixa etária.
As evidências apontam em outra direção. Estudos sobre desempenho mostram que adaptação, criatividade e aprendizagem dependem muito mais de fatores como perfil individual, qualificação, experiência acumulada e cultura organizacional do que da idade em si.
Por outro lado, pesquisas indicam que o aprendizado contínuo é determinante para a evolução do conhecimento coletivo, mas os indivíduos respondem aos treinamentos de forma diferenciada. Nesse sentido, a combinação de talento com oportunidades de desenvolvimento cognitivo amplia as possibilidades de atingir melhores níveis de proficiência e desempenho (Ericsson; Smith; 1991).

A figura ao lado demonstra como o aprendizado contínuo tem impactos diferentes, quando o talento das pessoas pode ser exponenciado pelo treinamento dirigido.
Por outro lado, o desenvolvimento de talento depende fortemente da experiência acumulada, visto que a maior parte das competências de alto desempenho não é adquirida apenas por meio de conhecimento teórico, mas pela combinação entre aprendizado, prática, erros, reflexão e adaptação ao longo do tempo.
Além disso, existe uma contradição evidente na forma como muitas empresas tratam a inovação. Inovar não significa apenas criar algo novo; significa também aprender continuamente. Toda inovação consistente resulta da combinação entre experimentação e conhecimento. Não basta imaginar o futuro; é necessário compreender o passado, entender o que funcionou, o que fracassou e por quê.
Quando organizações descartam ou desvalorizam profissionais experientes em nome da renovação, correm o risco de perder justamente o conhecimento histórico que sustenta processos inovadores de longo prazo. Ignorar as premissas que orientaram e sustentaram os negócios até aqui é desprezar um dos fundamentos da própria inovação: a sustentabilidade de propósito.
Enquanto o propósito responde à pergunta “por que existimos?”, a inovação responde “como continuaremos cumprindo nossa missão em um ambiente em constante transformação?”. Os meios podem mudar, mas o propósito deve ser duradouro de forma a projetar reputação e construir o futuro.
Por isso, o etarismo representa também uma incapacidade de reconhecer o valor estratégico da experiência. Conhecimento histórico, capacidade de antecipar riscos, julgamento mais apurado e visão de longo prazo são competências que tendem a se fortalecer ao longo da trajetória profissional. Empresas que desprezam esses ativos correm o risco de repetir erros já conhecidos, desperdiçando lições que custaram tempo, recursos e aprendizado.
Assim, mesmo os argumentos mais sofisticados, a defesa da preferência por equipes mais jovens encontram pouco respaldo nas evidências. É verdade que organizações podem se beneficiar da energia, da familiaridade tecnológica e da disposição para experimentar frequentemente associadas às novas gerações. No entanto, as empresas mais bem-sucedidas compreendem que o verdadeiro diferencial competitivo está na diversidade cognitiva.
Equipes intergeracionais combinam perspectivas distintas, conciliando ousadia e prudência, velocidade e reflexão, criatividade e experiência. Elas reconhecem que a inovação depende da capacidade de aprender continuamente e que o aprendizado ocorre tanto pela exploração do novo quanto pela compreensão do que já foi vivido.
Em ambientes de mudança acelerada, a valorização excessiva da ruptura pode levar à falsa crença de que apenas o novo importa.
A partir dessa lógica, a experiência passa a ser vista como um obstáculo, quando na realidade é um dos pilares da inovação sustentável. Trata-se de um erro estratégico que pode ser fatal, pois as transformações mais relevantes raramente surgem da negação do passado. Elas surgem da capacidade de conectar memória institucional, conhecimento acumulado e novas ideias.
Se as organizações que não inovam correm o risco de se tornar irrelevantes, aquelas que inovam sem considerar sua história e seu propósito podem perder identidade, coerência e direção. A sustentabilidade exige equilíbrio entre permanência e mudança, entre valores duradouros e aprendizado contínuo.
Diante disso, a inovação deixa de ser apenas uma ferramenta de crescimento para se tornar um mecanismo de preservação daquilo que realmente importa. E é justamente por isso que combater o etarismo não significa rejeitar o novo, mas reconhecer que o futuro é construído com a inteligência de quem consegue aprender tanto com as oportunidades que surgem quanto com as experiências que já foram vividas.
Afinal, desde quando aprender com o passado virou um problema?







Comentários