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O que as empresas na América Latina estão buscando ao contratar

31 de ago.
4 min de leitura

O que o padrão das demandas por competências nos ensina 


Um estudo da Universidade de Buenos Aires (UBA) analisou mais de 1,2 milhão de vagas de emprego publicadas entre dezembro de 2025 e junho de 2026 na Argentina, Brasil, Colômbia e México, combinando portais tradicionais (ZonaJobs, Computrabajo, Catho, Infojobs) com a plataforma freelance Workana.


O resultado talvez não surpreenda quem acompanha de perto a difusão de tecnologia, mas revela um contraste evidente entre as expectativas públicas em torno da inteligência artificial revolucionando o mercado de trabalho e o que, de fato, as empresas estão procurando. Os dados sobre demanda de competências relacionadas a IA destoam do discurso de "reskilling" em massa que domina eventos corporativos e debates sobre o futuro do trabalho.


É desconfortável, para quem espera um ritmo mais acelerado de impacto da IA nas empresas, constatar que ela aparece em apenas 0,6% a 3% das vagas; uma fração ínfima diante do potencial que se atribui à tecnologia nos negócios.


Uma leitura menos pessimista é possível: vagas de emprego captam a utilidade que as empresas já atribuem à IA hoje, não necessariamente para onde a tecnologia está indo. Nesse cenário, é plausível que muitas empresas estejam optando por desenvolver competências internamente — via treinamento e adaptação de equipes às tecnologias já existentes — em vez de contratar "especialistas" prontos no mercado.


Essa leitura é coerente com a história da difusão tecnológica, ainda que não necessariamente correta. Do computador pessoal à internet, passando por ERP e automação industrial, a literatura sobre adoção de tecnologia sempre mostrou hiatos de anos ou décadas entre a existência de uma tecnologia e sua presença ampla em requisitos formais de contratação. A América Latina, em particular, poderia ser esperada como defasada nesse processo por razões estruturais — informalidade, menor digitalização em certos setores — o que torna o dado baixo menos uma anomalia e mais um indício de que a adoção formal de IA ainda está em estágio bem inicial, mais do que muitos supõem.


Hard skills continuam no centro, mas nunca sozinhas


Os resultados do estudo vão muito além da demanda marginal por IA. Entre 85% e 92% das vagas exigem ao menos uma competência técnica específica, a categoria mais requisitada nos quatro países. As habilidades socioemocionais aparecem de forma transversal: cerca de 7 em cada 10 vagas pedem competências como comunicação, trabalho em equipe e proatividade, formando o segundo grupo mais demandado, presente em praticamente todas as ocupações e setores.


A complementaridade é a marca central do estudo. As empresas raramente pedem um único tipo de habilidade isolada. A combinação técnica + socioemocional é o perfil predominante nos quatro países, e em média cada vaga já pede entre 4,5 e 7 habilidades diferentes. Ou seja, o mercado não está mirando apenas hard skills ou apenas soft skills: está pedindo os dois ao mesmo tempo, com intensidade crescente. Quando a IA aparece, quase sempre vem junto dessas duas dimensões, reforçando perfis multidimensionais, não substituindo os demais.


As vagas para freelance apresentam um perfil distinto: mais intensivas em habilidades técnicas e de IA, porém com menor peso de socioemocionais, refletindo a natureza mais digital e pontual desses projetos.


Experiência e educação seguem como exigências complementares


Outro achado relevante é que experiência e educação funcionam como dimensões complementares, não substitutas. Em três dos quatro países analisados, cerca de 85% ou mais das vagas exigem experiência prévia. A incidência é menor no Brasil, mas a experiência, somada à educação, segue presente em mais da metade das ofertas, evidenciando que as empresas valorizam ambas as dimensões simultaneamente. Essa diferença brasileira provavelmente reflete a dinâmica de rotatividade e formalização historicamente distinta do país frente aos demais analisados, o que se traduz em como as vagas descrevem seus requisitos.


Em conjunto, os dados permitem inferir que as mudanças tecnológicas estão remodelando a demanda por competências de forma ainda lenta, mas gradual e heterogênea. A IA se concentra em vagas ou ocupações digitais e tecnológicas, permanecendo rara em trabalhos menos específicos ou de forte interação interpessoal. Por isso, o estudo recomenda políticas de formação que combinem conhecimento técnico, competências digitais e habilidades socioemocionais, adaptadas à heterogeneidade dos diferentes segmentos do mercado de trabalho, em vez de assumir uma difusão uniforme da tecnologia.


A tensão que os dados não resolvem


Há, porém, uma tensão que merece ser levada a sério. Se a combinação técnica + socioemocional é tão fundamental para resolver desafios corporativos, e a IA é uma tecnologia genuinamente transformadora para muitos desses desafios, seria razoável esperar que ela aparecesse com mais frequência, não menos. Um número tão baixo (0,6% a 3%) sugere que a maioria das empresas ainda não conseguiu traduzir seu propósito de negócio e seus desafios corporativos em uma demanda de competência de IA articulada, o que enfraquece a ideia de que a tecnologia já está sendo puxada organicamente pelas necessidades do negócio.


Soft skills são essenciais, mas visão estratégica também exige distinguir dois estágios distintos: o do "queremos usar IA", ainda genérico e aspiracional, e o do "sabemos exatamente o que queremos da tecnologia para alcançar nossos objetivos e superar nossos desafios". Os dados sugerem que a maioria do mercado ainda opera na lógica inversa: a tecnologia orientando as operações, em vez de responder a um propósito e a desafios corporativos já definidos. É precisamente por isso que a demanda por IA aparece tão dispersa e pouco intencional nos dados: não porque a tecnologia seja irrelevante, mas porque poucas empresas já converteram intenção em critério concreto de contratação.


O estudo revela como as empresas estão lidando com a formação e atração de talentos. Um padrão de mercado. Serve como referência para quem quer acompanhar, mas indica que a mesmice pode ser superada por quem quer se diferenciar. 


Desenvolver talentos não é apenas se adaptar, é se orientar pelo futuro que desejamos.


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