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A NOVA PANDEMIA GLOBAL: O NACIONALISMO

23 de jul.
4 min de leitura

A pandemia da Covid-19 passou. Mas outra parece ter chegado para ficar: a do nacionalismo econômico. E o Brasil precisa fazer uma escolha: Muros ou pontes.


Em maio de 2020, publiquei aqui no nosso blog o artigo "Efeito da pandemia: A tentação de abraçar o nacionalismo".


Naquele momento, a preocupação era compreender como o mundo reagiria quando a crise sanitária passasse.

Seis anos depois, é possível afirmar que a pandemia terminou, mas o sentimento de vulnerabilidade permaneceu. E foi justamente esse sentimento que alimentou uma nova pandemia: a do nacionalismo econômico.


A experiência vivida pelo Brasil e pela maior parte do mundo durante a Covid-19 foi devastadora. Além da tragédia humanitária, vieram a retração econômica, o desemprego, o aumento da pobreza, a deterioração das contas públicas, a desorganização das cadeias produtivas e o agravamento das tensões políticas. A velocidade com que a crise se espalhou evidenciou o quanto os países estavam despreparados para enfrentar choques globais dessa magnitude.


Crises profundas costumam provocar mudanças de paradigma. Guerras, pandemias e colapsos financeiros despertam a percepção de que independência e autossuficiência são questões estratégicas de sobrevivência. É uma reação compreensível, mas que frequentemente conduz ao protecionismo, ao fechamento das economias e ao enfraquecimento da cooperação internacional.


Como observou Roberto Azevêdo, então diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC):

"O comércio internacional é vital para garantir escala de produção e o abastecimento de bens essenciais, a preços acessíveis. Para isso, os mercados precisam permanecer abertos e conectados."


Naquele artigo de 2020, alertei que o sentimento de vulnerabilidade estimularia governos a ampliar subsídios e barreiras comerciais para proteger setores considerados estratégicos, como agricultura, indústria e tecnologia. Esse movimento fortaleceria correntes nacionalistas que já existiam e permanecem latentes.


Foi exatamente o que ocorreu.


Embora o comércio mundial tenha se recuperado em 2021, as rupturas nas cadeias globais de suprimentos revelaram a dependência excessiva de poucos fornecedores. A escassez de semicondutores, medicamentos, equipamentos médicos, fertilizantes e diversos insumos industriais passou a ser tratada não apenas como um problema econômico, mas como uma questão de segurança nacional.


A partir daí, a lógica da eficiência começou a dividir espaço com a lógica da resiliência.


Hoje, incentivos domésticos, políticas industriais, restrições às importações, controle sobre tecnologias estratégicas e barreiras alfandegárias deixaram de ser medidas excepcionais para se tornarem instrumentos permanentes da política econômica em diversas potências.


Os Estados Unidos representam um dos exemplos mais evidentes dessa mudança. Sob diferentes governos, ampliaram políticas de reindustrialização, incentivos à produção doméstica e restrições comerciais voltadas à proteção de setores estratégicos. A disputa tecnológica com a China acelerou ainda mais esse processo, desencadeando reações semelhantes em outras economias.


Ao mesmo tempo, conflitos geopolíticos voltaram a ocupar o centro das relações internacionais. Guerras, disputas por recursos estratégicos e rivalidades comerciais reforçam o nacionalismo como elemento de mobilização política e econômica.


O problema é que a história demonstra que o protecionismo excessivo costuma produzir efeitos colaterais relevantes: redução da concorrência, aumento dos preços, menor eficiência econômica, desabastecimento em determinados setores e transferência de renda para grupos protegidos, frequentemente às custas do consumidor.


Em casos extremos, como na Alemanha nazista, a busca pela autossuficiência econômica contribuiu para graves desequilíbrios internos. A política industrial focada na hegemonia bélica, a substituição das importações e controle da produção agrícola gerou escassez de alimentos e levou o regime a buscar recursos nos territórios ocupados durante a Segunda Guerra Mundial, com consequências humanitárias catastróficas.


Naturalmente, cada contexto histórico possui características próprias. O ponto central é outro: quando o nacionalismo econômico se transforma em isolamento permanente, os custos tendem a superar os benefícios.


Diante desse cenário, duas correntes de pensamento continuam disputando espaço de como uma nação pode enfrentar melhor as crises globais e internas.


A primeira defende um Estado mais forte, capaz de conduzir a economia, definir prioridades estratégicas e garantir segurança produtiva em momentos de crise. Sob essa perspectiva, cabe ao poder público direcionar investimentos, proteger setores considerados essenciais e reduzir dependências externas.


A segunda valoriza a autodeterminação da sociedade e dos indivíduos, fundamentada na liberdade econômica, na responsabilidade e na capacidade das pessoas e das empresas de construir soluções. Nesse modelo, o Estado exerce papel relevante, mas como instrumento da sociedade, e não como seu protagonista absoluto.


Essas duas visões continuam presentes no debate público brasileiro e influenciam diretamente a formulação das políticas econômicas.


Independentemente da corrente adotada, um ponto parece consensual: as economias precisarão ser mais resilientes.

Resiliência, porém, não significa isolamento.


Buscar reduzir dependências estratégicas em áreas críticas é uma decisão legítima. Outra coisa é transformar a autossuficiência em objetivo para todos os setores da economia.


A tentativa de produzir internamente tudo o que um país consome tende a dispersar recursos financeiros, tecnológicos e humanos, enfraquecendo justamente os segmentos em que há maior valor agregado e capacidade de competir globalmente.


Nenhuma economia moderna é líder em tudo. As nações mais competitivas concentram esforços naquilo em que possuem vantagens comparativas, elevada produtividade e capacidade de inovação, utilizando o comércio internacional para complementar suas necessidades. Especializar-se não significa abrir mão da soberania, mas alocar recursos de forma mais eficiente para gerar riqueza, renda e desenvolvimento.


Quando a busca pela independência absoluta substitui a busca pela competitividade, o resultado costuma ser uma economia mais cara, menos inovadora e menos integrada às cadeias globais de valor. Em vez de fortalecer os setores mais dinâmicos, o país corre o risco de distribuir incentivos de forma indiscriminada, reduzindo sua eficiência e comprometendo seu potencial de crescimento no longo prazo.


Segundo o Banco Mundial, o Brasil permanece entre as economias mais fechadas do mundo, com uma corrente de comércio relativamente baixa em relação ao PIB quando comparada à maioria das economias emergentes e desenvolvidas. Isso representa um desafio adicional em um ambiente internacional cada vez mais fragmentado.


A grande questão, portanto, não é escolher entre globalização ou nacionalismo. É encontrar o equilíbrio entre integração internacional, competitividade, segurança econômica e soberania.

Essa talvez seja a principal lição deixada pela pandemia.


Para as empresas, a mensagem é clara. Geopolítica deixou de ser um tema restrito aos governos e passou a fazer parte das decisões estratégicas dos negócios. Cadeias de suprimentos, mercados consumidores, investimentos e inovação passaram a depender, cada vez mais, das relações internacionais.

Esperar que o cenário global volte a ser o que era antes de 2020 significa assumir o risco da inércia.


O mundo mudou.

Quem insistir apenas em adaptar-se poderá sobreviver, mas é a capacidade de se posicionar para o futuro que garante a evolução.


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